domingo, 6 de outubro de 2013

Cadeira Vazia - Nelson Gonçalves (1964)

Entra, meu amor, fica à vontade
E diz com sinceridade
O que desejas de mim

Entra, podes entrar, a casa é tua
Já que cansastes de viver na rua
E que os teus sonhos chegaram ao fim

Eu sofri demais quando partiste
Passei tantas horas triste
Que nem quero lembrar esse dia

Mas de uma coisa podes ter certeza
O teu lugar aqui na minha mesa
Tua cadeira ainda está vazia

Tu és a filha pródiga que volta
Procurando em minha porta
O que o vida não te deu

E faz de conta que eu sou teu paizinho
Que há muito tempo aqui ficou sozinho
A esperar por um carinho teu

Voltaste, estás bem, estou contente
Só me encontraste muito diferente
Vou te falar de todo coração

Não te darei carinho nem afeto
Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto
Pra te alimentar, podes comer meu pão

Voltaste, estás bem, estou contente
Só me encontraste muito diferente
Vou te falar de todo coração

Não te darei carinho nem afeto
Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto
Pra te alimentar, podes comer meu pão

Lupicínio Rodrigues / Alcides Gonçalves



1964 - Tudo de Mim

Risque - Nelson Gonçalves (1964)

Risque, meu nome do seu caderno
Pois não suporto o inferno
Do nosso amor fracassado

Deixe, que eu siga novos caminhos
Em busca de outros carinhos
Matemos nosso passado

Mas, se algum dia, talvez, a saudade apertar
Não se perturbe, afogue a saudade
Nos copos de um bar

Creia, toda a quimera se esfuma
Como a brancura da espuma
Que se desmancha na areia

Creia, toda a quimera se esfuma
Como a brancura da espuma
Que se desmancha na areia

Risque...

Ary Barroso



1964 - Tudo de Mim

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Três Apitos - Miltinho (1970)

Quando o apito
Da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você

Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
Ou está interessada
Em fingir que não me vê

Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro
Porque não atende ao grito
Tão aflito, da buzina do meu carro

Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
Não faz fé no agasalho
Nem no frio você crê

Mas você é mesmo
Artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você

Nos meus olhos você lê
Que eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente
Impertinente, que dá ordens a você

Sou do sereno
Poeta muito soturno
Vou virar guarda-noturno
E você sabe porquê

Mas você não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto do piano
Estes versos pra você

Você que atende ao apito
Ao apito de uma chaminé de barro
Porque não atende ao grito
Tão aflito, da buzina do meu carro

Noel Rosa 



1970 - Miltinho e a Seresta

No Rancho Fundo - Miltinho (1970)

No rancho fundo
Bem pra lá do fim do mundo
Onde a dor e a saudade
Contam coisas da cidade

No rancho fundo,
De olhar triste e profundo
Um moreno canta as 'mágoa'
Tendo os olhos rasos d'água

Pobre moreno
Que de tarde no sereno
Espera a lua no terreiro
Tendo o cigarro por companheiro

Sem um aceno
Ele pega na viola
E a lua por esmola
Vem pro quintal deste moreno

No rancho fundo
Bem pra lá do fim do mundo
Nunca mais houve alegria
Nem de noite, nem de dia

Os arvoredos
Já não contam mais segredos
Que a última palmeira
Já morreu na cordilheira

Os passarinhos
Enterraram-se nos ninhos
De tão triste essa tristeza
Enche de trevas a natureza

Tudo por quê?
Só por causa do moreno
Que era grande, hoje é pequeno
Para uma casa de sapê

Se Deus soubesse
Da tristeza lá na serra
Mandaria lá pra cima
Todo o amor que há na Terra

Porque o moreno
Vive louco de saudade
Só por causa do veneno
Das mulheres da cidade

Ele que era
O  cantor da primavera
Que até fez do rancho fundo
O céu melhor que tem no mundo

O sol queimando
Se uma flor lá desabrocha
A montanha vai gelando
Lembrando o aroma da cabrocha

No rancho fundo...

Ary Barroso / Lamartine Babo



1970 - Miltinho e a Seresta

Saia do Caminho - Aracy de Almeida (1969)

Junte tudo que é seu,
Seu amor, seus trapinhos
Junte tudo o que é seu
E saia do meu caminho

Nada tenho de meu
Mas prefiro viver sozinha
Nosso amor já morreu
E a saudade se existe é minha

Tinha até um projeto,
No futuro, um dia
O nosso mesmo teto
Mais uma vida abrigaria

Fracassei novamente
Pois sonhei, mas sonhei em vão
E você francamente, decididamente
Não tem coração

Tinha até um projeto,
No futuro, um dia
O nosso mesmo teto
Mais uma vida abrigaria

Fracassei novamente
Pois sonhei, mas sonhei em vão
E você francamente, decididamente
Não tem coração

Custódio Mesquita / Evaldo Ruy



1969 - Aracy de Almeida

Serra da Boa Esperança - Silvio Caldas (1958)

Serra da Boa Esperança, esperança que encerra
No coração do Brasil um punhado de terra
No coração de quem vai, no coração de quem vem
Serra da Boa Esperança meu último bem

Parto levando saudades, saudades deixando
Murchas caídas na serra lá perto de Deus
Oh minha serra eis a hora do adeus vou me embora
Deixo a luz do olhar no teu luar, adeus

Levo na minha cantiga a imagem da serra
Sei que Jesus não castiga o poeta que erra
Nós os poetas erramos, porque rimamos também
Os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem

Serra da Boa Esperança não tenhas receio
Hei de guardar tua imagem com a graça de Deus
Oh minha serra eis a hora do adeus vou me embora
Deixo a luz do olhar no teu luar, adeus

Lamartine Babo



1958 - Cabelos Brancos

Cabelos Brancos - Silvio Caldas (1958)

Não falem desta mulher perto de mim
Não falem pra não lembrar minha dor
Já fui moço, já gozei a mocidade
Se me lembro dela me dá saudade
Por ela vivo aos trancos e barrancos
Respeitem ao menos os meus cabelos brancos

Ninguém viveu a vida que eu vivi
Ninguém sofreu na vida o que eu sofri
As lágrimas sentidas,os meus sorrisos francos
Refletem-se hoje em dia nos meus cabelos brancos
E agora em homenagem ao meu fim
Não falem desta mulher perto de mim

E agora em homenagem ao meu fim
Não falem desta mulher perto de mim

Marino Pinto / Herivelto Martins




1958 - Cabelos Brancos