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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Fica - MPB-4 (1967)

Diz que eu não sou de respeito
Diz que não dá jeito
De jeito nenhum

Diz que eu sou subversivo
Um elemento ativo, feroz e nocivo
Ao bem-estar comum

Fale do nosso barraco
Diga que é um buraco
Que nem queiram ver

Diga que o meu samba é fraco
E que eu não largo o taco
Nem pra conversar com você

Mas fica, mas fica ao lado meu
Você sai e não explica
Onde vai e a gente fica
Sem saber se vai voltar

Diga ao primeiro que passa
Que eu sou da cachaça
Mais do que do amor

Diga e diga de pirraça
De raiva ou de graça
No meio da praça, é favor

Mas fica, mas fica ao lado meu
Você sai e não explica
Onde vai e a gente fica
Sem saber se vai voltar

Diz que eu ganho até folgado
Mas perco no dado
E não lhe dou vintém

Diz que é pra tomar cuidado
Sou um desajustado
É o que lhe agrada, meu bem

Mas fica, mas fica, meu amor
Quem sabe um dia
Por descuido ou poesia
Você goste de ficar

Diz que eu não sou de respeito
Diz que não dá jeito
De jeito nenhum

Diz que eu sou subversivo
Um elemento ativo, feroz e nocivo
Ao bem-estar comum

Chico Buarque




1967 - MPB-4

sábado, 7 de abril de 2012

Minha História (Gesubambino) - MPB-4 (1971)

Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente

Ele assim como veio partiu não se sabe pra onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperando, parada, pregada na pedra do porto
Com seu único velho vestido, cada dia mais curto

Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré

Minha mãe não tardou alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor

Minha história e esse nome que ainda hoje carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões, as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus

Dalla / Pallotino / vrs. Chico Buarque






sexta-feira, 6 de abril de 2012

Deixa Estar - MPB-4 (1970)

Deixa estar, deixa estar
Não vai perder por esperar
Deixa estar
É só pra ver o que vai dar

Palavra de homem
Precisava te ver passar
As privações por que passei
Te ver gastar
Os lenços muitos que chorei

Irias ver o que era dor de uma saudade
Roendo a gente
Talvez aí tu ias dar valor àquela amizade
Que assim sem mais nem menos desprezaste
Ai, que maldade

Então tu ias dar valor àquela amizade
Que assim sem mais nem menos desprezaste
Deixa Estar

Deixa estar, deixa estar
Não vai perder por esperar
Deixa estar
É só pra ver o que vai dar

Palavra de homem
Precisava te ver passar
As privações por que passei
Te ver gastar
Os lenços muitos que chorei

Irias ver o que era dor de uma saudade
Roendo a gente
Talvez aí tu ias dar valor àquela amizade
Que assim sem mais nem menos desprezaste
Ai, que maldade

Então tu ias dar valor àquela amizade
Que assim sem mais nem menos desprezaste
Deixa Estar

Ai Que Maldade...

Hermínio Bello de Carvalho / Maurício Tapajós





segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Canção de Não Cantar - MPB-4 (1967)

Guarda o meu violão
Já nos faltam canções
São muitas as razões que temos pra cantar
Mas, hoje, amor melhor é não cantar
Enquanto houver em nós vontade de fugir
De um canto que na voz não vai saber mentir

Meu canto para ser um canto certo
Vai ter que nascer liberto, e morar no assovio
Do ocupado e do vadio
Do alegre e do mais triste
Só há canto quando existe muito tempo e muito espaço
Pra canção ficar, se eu passo, e dizer o que eu não disse
Ai, que bom se eu ouvisse o meu canto por aí

Meu canto para ser um canto certo
Vai ter que nascer liberto, e morar no assovio
Do ocupado e do vadio
Do alegre e do mais triste
Só há canto quando existe muito tempo e muito espaço
Pra canção ficar, se eu passo, e dizer o que eu não disse
Ai, que bom se eu ouvisse o meu canto por aí

Por isso, um violão prefere emudecer
E vem pedir perdão por não poder cantar
Que, hoje, amor, melhor é não cantar

Sérgio Bittencourt