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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Trem das Cores - Caetano Veloso (1982)

A franja da encosta
Cor de laranja
Capim rosa chá
O mel desses olhos luz
Mel de cor ímpar
O ouro ainda não bem verde da serra
A prata do trem
A lua e a estrela
Anel de turquesa
Os átomos todos dançam
Madruga
Reluz neblina
Crianças cor de romã
Entram no vagão
O oliva da nuvem chumbo
Ficando
Pra trás da manhã
E a seda azul do papel
Que envolve a maçã
As casas tão verde e rosa
Que vão passando ao nos ver passar
Os dois lados da janela
E aquela num tom de azul
Quase inexistente, azul que não há
Azul que é pura memória de algum lugar
Teu cabelo preto
Explícito objeto
Castanhos lábios
Ou pra ser exato
Lábios cor de açaí
E aqui, trem das cores
Sábios projetos:
Tocar na central
E o céu de um azul
Celeste celestial

Caetano Veloso




Queixa - Caetano Veloso (1982)

Um amor assim delicado
Você pega e despreza
Não devia ter despertado
Ajoelha e não reza

Dessa coisa que mete medo
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado
Disso eu tenho a certeza

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa

Um amor assim violento
Quando torna-se mágoa
É o avesso de um sentimento
Oceano sem água

Ondas, desejos de vingança
Nessa desnatureza
Batem forte sem esperança
Contra a tua dureza

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa

Um amor assim delicado
Nenhum homem daria
Talvez tenha sido pecado
Apostar na alegria

Você pensa que eu tenho tudo
E vazio me deixa
Mas Deus não quer que eu fique mudo
E eu te grito esta queixa

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Amiga, me diga...

Caetano Veloso






Cavaleiro de Jorge - Caetano Veloso (1982)

Cavaleiro de Jorge
Seu chapéu azul
Cruzeiro do Sul no peito

Cavaleiro de Jorge
Sem medo nenhum
O número um direito

Sempre firme sobre o cavalo
Impávido-turquesa
Estrada ou mesa de bar

Sempre mil pavões-força
De beleza pura e simples
Como uma onda do mar

Cavaleiro de Jorge
Potência de amar
Senhor do lugar inteiro

Cavaleiro de Jorge
Seu chapéu azul
Cruzeiro do Sul no peito

Cavaleiro de Jorge
Sem medo nenhum
O número um direito

Sempre firme sobre o cavalo
Impávido-turquesa
Estrada ou mesa de bar

Sempre mil pavões-força
De beleza pura e simples
Como uma onda do mar

Cavaleiro de Jorge
Potência de amar
Primeiro lugar inteiro

Cavaleiro de Jorge
Potência de amar
Senhor do lugar inteiro

Caetano Veloso






quinta-feira, 10 de maio de 2012

Superbacana - Caetano Veloso (1968)

Toda essa gente se engana
Ou então finge que não vê que eu nasci
Pra ser o superbacana
Eu nasci pra ser o superbacana

Superbacana, Superbacana
Superbacana, Super-homem
Superflit, Supervinc
Superist, Superbacana

Estilhaços sobre Copacabana
O mundo em Copacabana
Tudo em Copacabana, Copacabana

O mundo explode longe, muito longe
O sol responde, o tempo esconde
O vento espalha e as migalhas
Caem todas sobre Copacabana, me engana

Esconde o superamendoim
O espinafre, o biotônico
O comando do avião supersônico

Do parque eletrônico
Do poder atômico
Do avanço econômico

A moeda número um do Tio Patinhas não é minha
Um batalhão de cowboys
Barra a entrada da legião dos super-heróis

E eu superbacana
Vou sonhando até explodir colorido
No sol, nos cinco sentidos
Nada no bolso ou nas mãos

Um instante, maestro!

Super-homem, Superflit
Supervinc, Superist
Superviva, Supershell
Superquentão...

Caetano Veloso






domingo, 25 de dezembro de 2011

Alegria, Alegria - Caetano Veloso (1968)

Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou, por que não? Por que não?

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento,
Eu vou

Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
É no coração do Brasil

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou

Por que não? Por que não?
Por que não? Por que não?
Por que não? Por que não?

Caetano Veloso